Aldeia do Bispo Onde a Castanha Conta Histórias

Foi apresentado ontem, dia 27 de fevereiro, no Museu da Guarda, o novo número da revista Boletim 1056,3 | In-Folio. Nesta edição, destacam-se os 85 anos do Museu da Guarda, evidenciando o seu potencial enquanto condensador cultural. A publicação documenta o trabalho intenso de partilha e de descoberta realizado pelo Museu da Guarda durante o ano de 2025, num percurso que surge como alavanca para construir o futuro.

Entre os destaques da edição encontra-se um estudo aprofundado sobre a nossa Freguesia de Aldeia do Bispo integrante do concelho da Guarda, assinado por Ângela Alves, do Museu da Guarda. O texto reflete sobre a história, o património e a cultura imaterial da aldeia, apresentando um olhar transversal que une a demografia histórica, a arquitetura, a museologia e a identidade cultural local.

Aldeia do Bispo: Onde a Castanha conta Histórias

"Aldeia do Bispo, freguesia integrante do concelho da Guarda, configura-se como um estudo de caso paradigmático da resiliência, assumindo uma presença documentada nas comunidades de montanha na Beira Alta, possivelmente desde o século XIII, surgindo mencionada como «Aldeia Episcopi» na divisão das igrejas e rendas da diocese da Guarda realizada em 19 de julho de 1260 (Castro, 1902). 

A sua história e perfil socioeconómico espelham a realidade de um Portugal profundo, onde a economia de subsistência e os desafios demográficos persistentes moldaram a arquitetura, a religiosidade e a cultura imaterial. Analisar esta localidade requer uma leitura transversal que una a demografia histórica do Antigo Regime à museologia contemporânea, entendendo o território como um documento vivo que resiste ao esquecimento através de projetos culturais. A evolução populacional da freguesia, conforme registado nos Censos do Instituto Nacional de Estatística², permite traçar uma curva de desenvolvimento típica das aldeias serranas. Durante o Antigo Regime, verificou-se uma estabilidade demográfica assinalável: em 1527, o Cadastro da População do Reino³ contabilizava 35 fogos, número que ascendeu aos 84 fogos e cerca de 263 almas no século XVIII, segundo as Memórias Paroquiais de 1758⁴. No final deste ciclo, por volta de 1820, os registos da Estatística Paroquial do Bispado da Guarda indicavam 80 fogos e 286 residentes⁵. O século XIX marcaria o auge demográfico da freguesia, atingindo em 1890 o pico de 511 residentes. No entanto, a Época Contemporânea trouxe o fenómeno do despovoamento; em 2021, a população fixou-se em 198 habitantes, representando uma quebra de 10% numa década e uma densidade populacional que caiu para metade face aos valores de 1864, evidenciando a urgência de estratégias de mitigação da desertificação humana através da valorização patrimonial.

A sobrevivência em Aldeia do Bispo foi, historicamente, uma vitória sobre a geografia. Documentos setecentistas descrevem uma economia pastoril determinada pelo clima gélido e pelos solos de baixa fertilidade, onde, ao contrário de regiões de menor altitude, as culturas da vinha e da oliveira entram em decadência e os solos vão sendo transformados em soutos de castanheiros ou moitas de carvalhos. A subsistência a partir do século XVIII assenta no binómio centeio-castanha, sendo o cereal cultivado de forma adaptativa entre os «barrocos», em áreas abrigadas do monte.

A gestão da terra era frequentemente coletiva, como demonstra o Inquérito aos Baldios de 19397, onde a Junta de Freguesia geria o arrendamento de pastagens e terrenos para cultivo. Este modelo comunitário estruturava não apenas a economia local, mas também as relações sociais e a organização do quotidiano. Infraestruturas partilhadas, como tanques comunitários, desempenhavam um papel central na vida da aldeia, funcionando como espaços de trabalho, encontro e sociabilidade. A nível eclesiástico, o pároco detinha o título de Priorado in solidum da Câmara Episcopal, com rendimentos que, em 1820, provinham maioritariamente da cobrança de dízimos.

Este isolamento económico traduziu-se numa elevada taxa de iliteracia, que atingia 96,8% em 1890, o que reforçou o papel da transmissão oral e da música na preservação da memória coletiva. Os Cantares Populares, documentados na coleção «O Fio da Memória», revelam uma vida cantada, onde o trabalho agrícola e o castanheiro são temas recorrentes, mantidos pelo Grupo de Cantares e pelo Grupo de Encomendação das Almas, que preserva a tradição religiosa performativa típica da Quaresma.

O património edificado encontra o seu expoente na Igreja Paroquial do Divino Salvador, de estilo barroco (1748), construída sobre um templo mais antigo e ostentando o brasão do Bispo D. Bernardo António de Melo Osório. No seu interior, a Capela da Santíssima Trindade guarda um tesouro iconográfico estudado por Sónia Duarte: pinturas a óleo sobre tábua representando Anjos Músicos. Entre eles, destaca-se um anjo tangedor de baixão, instrumento do século XVIII, cuja representação é de um valor artístico excecional e raríssimo na alegoria sacra.

Esta erudição artística contrasta e complementa o quotidiano rural, preservado no Museu Etnográfico da Castanha. Inaugurado a 8 de dezembro de 2006, o museu resultou da cedência de uma antiga habitação em ruínas pela família Camurça, gesto determinante para a concretização de um objetivo antigo da comunidade. O projeto de arquitetura foi oferecido pelo Arquiteto Aires Almeida, num exercício de reabilitação que respeitou a identidade construtiva.

Neste enquadramento, o Museu Etnográfico da Castanha pode igualmente ser interpretado à luz da reflexão desenvolvida por Maria Galhardo Magalhães e Luís Doncha sobre o papel dos museus no reforço da autoestima das comunidades locais. Os autores defendem que os museus de base territorial e comunitária funcionam como dispositivos de reconhecimento simbólico, capazes de transformar práticas e saberes quotidianos – frequentemente associados a contextos de invisibilidade social – em património cultural legitimado. Ao valorizar elementos identitários endógenos, estas instituições contribuem para a reconstrução da imagem que a comunidade tem de si própria, reforçando o sentimento de pertença, a coesão social e a confiança no futuro do território. No caso da Aldeia do Bispo, a musealização da castanha, historicamente associada a uma economia de subsistência, inscreve-se plenamente neste processo de resinificação positiva, funcionando como instrumento de afirmação identitária e de resistência cultural face ao despovoamento e à fragilidade estrutural do mundo rural. 

À luz da reflexão desenvolvida por Magalhães e Luís Doncha, o Museu Etnográfico da Castanha insere-se no quadro da «Nova Museologia», funcionando como um dispositivo de reconhecimento simbólico e de reforço da autoestima comunitária. O museu opera como um «museu aberto», onde a salvaguarda da memória coletiva e do conhecimento tácito – o saber-fazer acumulado pelas gerações – se torna o principal ativo. Como aponta o prefácio de Carlos Costa no referido manual, a valorização das tradições endógenas é fundamental para a criação de destinos turísticos genuínos e sustentáveis. O museu assume-se, assim, como um agente de desenvolvimento local, combatendo a invisibilidade das regiões periféricas através da promoção de um «turismo de experiência». A participação direta da comunidade, visível na doação do acervo, transforma o espaço num fórum democrático de identidade, onde a autoestima das populações é reforçada perante adversidades externas, como o abandono rural e os incêndios florestais.

Do ponto de vista arquitetónico, a intervenção baseou-se na dicotomia entre o granito original e a massa orgânica da madeira introduzida na estrutura interna. As paredes mestras em granito, com espessuras consideráveis, garantem a inércia térmica necessária ao clima de montanha. O rés-do-chão acolhe a exposição permanente, onde o elemento central da museografia é o caniço – estrutura de ripas suspensa sobre a lareira para a cura das castanhas através do fumo – culminando na evocação do Paparote, a tradicional sopa de castanha seca. A castanha, o histórico «pão dos pobres», é o fio condutor de um percurso que aborda desde a botânica à gastronomia. Este «deambular» permite ao visitante compreender o esforço da apanha e a complexidade do transporte, culminando na valorização de um recurso que moldou a alimentação e as vivências sociais da aldeia durante séculos.

Em suma, o Museu Etnográfico da Castanha é um pilar da identidade local, uma homenagem ao povo de Aldeia do Bispo e um recurso pedagógico vital que conecta o saber técnico do passado às aspirações de futuro da Beira Alta."

Texto de Ângela Alves

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